Alexandre Matias

Colaboração para o UOL

08/11/2019 04h00

A desenvoltura e naturalidade com que Gilberto Gil misturou seu repertório aos beats, solos e flow do BaianaSystem no último domingo deixou gosto de quero mais entre todos os envolvidos. E mostrou que Gil está pronto para outros encontros – mesmo depois de complicações de saúde recentes que preocuparam amigos, parentes e fãs.

O processo de recuperação começou há dois anos, com a revisita ao seu clássico disco de 1977 Refavela, em uma turnê ao lado de amigos e familiares, seguiu com o autoexplicativo disco Ok Ok Ok e agora culmina com este show que resume meio século de cultura baiana em quase duas horas de apresentação.

Relacionadas

Gilberto Gil sobre carreira artística da neta: "Faca de dois gumes"

No Twitter, Gilberto Gil faz reflexão e diz que não existe "mito"

Gilberto Gil relembra quando ele tocou tamborim no show dos Rolling Stones

Gil segue seu período de renascimento com mais registros e shows. O primeiro deles estreia na semana que vem no canal HBO: o documentário Refavela 40, dirigido por Mini Kerti, conta sobre a visita que Gil fez em 1977 ao Festival Mundial da Arte e da Cultura Negras, na Nigéria, e seu primeiro contato com o continente africano – traduzido no disco que completou 40 anos há dois anos.

O documentário, que será exibido no dia 19 de novembro, às 22h, conta a história do disco, com cenas de época e depoimentos de nomes como os músicos que acompanharam naquela viagem (Rubão Sabino, Robertinho Silva e Djalma Corrêa), além de Dom Filó, Hermano Vianna, Paulinho Camafeu e Vovô do Ilê também conta com a íntegra do show realizado na Concha Acústica de Salvador, ao lado de artistas como Céu, Maíra Freitas e Moreno Veloso.

E Gil já acertou a gravação da versão ao vivo do DVD de seu disco mais recente em março do ano que vem, em Copenhague, na Dinamarca. Além da possibilidade do encontro com o BaianaSystem continuar. A reportagem do UOL conversou com ele no último domingo:

Você já conhecia o BaianaSystem antes do convite para fazer o show juntos?

Magali Moraes/Divulgação

Gil – Eu conhecia de gravações, sabia das referências, dos discos e dos elogios feitos pelos meus filhos e meus netos, gente que vinha frequentando as apresentações deles. E também conhecia o trabalho anterior do Russo, com o trabalho dele mais ligado ao rap e aos soundsystems, que aliás é uma das inspirações pro nome da banda. Mas surpreendentemente nunca tinha ido a um show deles.

E agora, recentemente, dois ou três meses atrás, eles me convidaram para que eu fizesse parte de um show deles. Aceitei, trocamos várias figurinhas, eles mesmos escolheram o repertório, porque eles são muito ligados na minha trajetória, nos meus discos. Aí fizemos dois ensaios em Salvador.

O primeiro encontro foi num festival em Belo Horizonte…

Gil – Sim, foi em Belo Horizonte. Eu abri um show pra eles num festival chamado Sarará. E nos encontramos no camarim, falamos um pouco e ali que eles me deram a notícia do encontro, esperando que se realizasse. No Sarará não consegui vê-los ao vivo, porque estava dando entrevistas e fiquei ouvindo de longe, mas não pude propriamente ver o show.

Então a primeira vez que Gilberto Gil viu um show do BaianaSystem foi do palco.

Gil – Foi do palco, como um dos integrantes da banda (rindo).

Como surgiu a ideia da evolução do show?

Gil – Isso também foi uma proposta deles e eu achei muito interessante, muito justo e natural. A minha parte fui eu que defini, mas as oito canções que fiz com eles, eles que escolheram. Eles se referiram à escolha do repertório comigo como uma coisa que ia de encontro a uma tendência que se acentua no trabalho deles, especialmente agora nesse último disco, que é a consideração da importância do afoxé e do reggae na música da Bahia, a presença da música negra na vida musical baiana.

Foi daí que eles escolheram "Emoriô", "Serafim", canções que são nascidas desta apreciação pelo reggae, ou "Sarará Miolo", que é uma intersecção entre o reggae e o baião, coisas do meu trabalho que ao longo da formação deles foram importantes pro trabalho deles. É a fruição natural da música brasileira da minha época pra época deles.

E nesse disco mais recente, eles também conversam com o papel da Bahia na história do Brasil, de ser o primeiro lugar a proclamar a independência do Brasil, por exemplo. Eles fazem essa associação, que é muito importante pra nós todos, a evolução musical, a condição protagonista da festa baiana com a questão histórica, das origens, da força da presença negra e esses pontos que você levantou, a questão política, a questão da emancipação brasileira, a Bahia como ponto iniciático não só de uma cultura urbana mas também de uma cultura cívica, um berço de tudo isso.

Eles fazem questão de enfatizar isso, como você ressaltou, no último disco isso fica muito evidente. Eles têm uma noção muito clara não só da responsabilidade cultural e artística mas também da responsabilidade política. Eles são muito ciosos disso. É muito natural que essa cor do trabalho vá tomando mais nitidez.

O BaianaSystem faz parte de uma cena baiana que vem se fortalecendo cada vez mais, graças a artistas como Luedji Luna, Josyara, Maglore e o festival Radioca? Você consegue acompanhar a nova cena?

Gil – Acompanho muito à distância, primeiro porque eu estou mais assentado no que diz respeito, por assim dizer, à minha militância artística e musical. Eu já não ando muito por aí vendo as coisas, estou mais recolhido, em casa. Eventualmente fazendo meu trabalho ligado à sobrevivência natural e à manutenção de um interesse de compositor, de dizer e gravar coisas, como o disco que eu fiz recentemente, Ok Ok Ok.

O fato de eu nunca ter visto um show do Baiana é muito eloquente a respeito desse meu retraimento nessa fase atual da vida. Mas acompanho alguns nomes sim, como Josyara, Maglore, a Luedji… São vários. E eu como eu lhe disse em relação à minha aproximação com o Baiana, a minha família, meus meninos, meus filhos José e Bem, meus netos Francisco e João, eles têm um papel muito forte nessa aproximação. Eles fazem essa alavanca o tempo todo entre o que eles estão curtindo e o meu trabalho, me transmitem muitas coisas. A Iza, por exemplo, eu ouvi falar dela pela primeira vez por José, meu filho.

E vocês têm planos de seguir com esta colaboração?

Gil – Planos propriamente não, mas começaram a aparecer convites e sugestões pra que a gente leve um pouco mais à frente este trabalho e eu gostaria, com muito prazer, porque é muito bom trabalhar com eles. Eles são muito parecidos comigo no gosto musical, na apreciação do valor das raízes baianas, brasileiras, nordestinas, etc. A atmosfera em cena também é muito boa, muito bom nos ensaios e no show. Meu voto é a favor que a gente faça mais coisas.

E isso pode inevitavelmente culminar em uma composição conjunta…

Gil – Ah, sem dúvida. Se o prosseguimento se dar de fato, colaborar com composições seria uma consequência natural. A grande surpresa do encontro, pra mim, pelo menos, quando eu vi o jeito que os meninos faziam as reprogramações das minhas músicas pro estilo deles, dava uma sensação mais de reencontro do que de primeiro encontro, um reencontro com novos discípulos.

Tanto a sua trajetória quanto a deles têm um alinhamento político claro. Como você vê este encontro à luz do Brasil de 2019.

Gil – É uma forma evidente de resistência a todo esse desejo que têm os detentores do poder do Brasil hoje de ignorar a vida cultural, de ignorar a importância histórica do Brasil. Me lembro quando morreu o João Gilberto, o presidente deu uma declaração como se fosse só mais um artista morto. Isso só pra ficar num exemplo específico de tentativa de ignorar a história. E da nossa parte, tanto minha quanto dos meninos e do nosso público, não dá pra ignorar.

Depois deste show você já tem planos para lançar novos trabalhos?

Gil – Não estou compondo nada, mas vamos gravar em março o DVD do OK OK OK em Copenhague, na Dinamarca, e tem também o documentário sobre o Refavela 40, que estreia na semana que vem.

Deu pra ver pelo show com o BaianaSystem que você já está bem melhor de saúde.

Gil – A música ajuda muito à revigoração, à revitalização. Estar ali, nos ensaios, no trabalho doméstico de escrutínio de repertório, da avaliação das canções e nos shows, isso é o melhor remédio que existe. É mais revigorante que qualquer biotônico Fontoura! (rindo)

Comunicar erro

As mais lidas agora

Augusto Nunes é criticado na web por agressão a Greenwald: "Covarde"

Gritos de "Skol latão" roubam a cena em áudio de See, série da Apple TV+

Augusto Nunes agride Glenn Greenwald no Pânico

  • Entretenimento

© 1996 – 2019 UOL – O melhor conteúdo. Todos os direitos reservados

Recommended Posts